Ser italiano não faz o Palmeiras ser menos brasileiro

Imagem: Forza Palestrina / Sergio Ortiz

 

Ubiratan Leal é tão inteligente e culto que não deveria ser jornalista. Mesmo. Leal que é japonês. Japonês que torce pelo Verona. É mesmo um cara especial, amigo querido.

Não é alviverde como milhões. E como muitos dos palmeirenses não gosta dessa onda verde de Avanti! Scoppia che la vittoria è nostra. Os italianismos do clube que em 1942 foi obrigado a mudar de nome. Arrancaram a Itália dele emmarço, e o Palestra em setembro de 1942.

Entendo a ideia básica da “rejeição” ao passado – o que jamais vou entender, ainda mais para uma torcida que se vê como família, mais que nação, bando, república ou mesmo torcida. Um clube muito “italiano” afugenta o torcedor muito “brasileiro”. Já me falava um caro amigo dirigente do São Paulo a respeito. E eu respondia: “vou parar de respeitar minha raiz quando você deixar de ser quatrocentão. “Soberano” dos cardeais tricolores. Clube da elite. Vale para a aldeia paulistana o mesmo raciocínio para o Corinthians. O “clube do povo” é quem tem mais torcedores na classe que não veio do “povo”. E, se veio, é tipo Val Marchiori – não está disposta a voltar a ser “povão”.

O “maloqueiro e sofredor, graças a Deus” nunca afugentou quem não é “popular” de ser Corinthians. Tem mais corintiano em Higienópolis, nas piscinas do Paulistano, nas alamedas do Cidade Jardim e nas primeiras manifestações da Paulista contra PTudo que esPTaí que são-paulino e palmeirense.

Por que o palestrino-palmeirense tem de esquecer a raiz? Quem vive de passado é quem tem história. O alviverde “que sabe ser brasileiro” como foi o Brasil em 1965 e jogou pelo Brasil em 1951 não pode esquecer a Itália que uniu os 39 fundadores. Como o Corinthians se orgulha com razão e paixão pela origem operária e humilde. Como o São Paulo gosta de ser aristocrata – e ainda assim conquistou uma torcida maior que a do Palmeiras pelas muitas conquistas em campo nos últimos 25 anos. Não por ter esquecido sua origem.

O Palmeiras ser ainda muito italiano não o faz menos brasileiro. Apenas o faz mais compreendido. Ou não. É a tal questão de ser. Cada um sabe ou imagina o que é. E ser Avanti, se vê em números, não é problema para ser sócio-torcedor. Se fosse, sei lá, Xavanti, seria do mesmo jeito.

O Palmeiras quase sempre foi aberto para quem não era italiano. Por isso o tamanho de torcida que tem. Poderia ser maior se não fosse tão italiano? Quem sabe. Seria mais palmeirense se não fosse tão italiano? Jamais.

Basta.

Querer ser menos “italiano” é querer ser menos ele mesmo. Querer esquecer a origem é ter vergonha ou ignorância ou desrespeito. Estimular a própria origem e a história não é temer o futuro. É ser feliz pelo passado. É ter no futuro o presente de berço.

Sou um dos responsáveis pelo conteúdo cultural da Cantina Palestra, projeto de uma rede de restaurantes oficiais do clube. Sou suspeito para dizer que não foi “boa ideia” o nome escolhido pelos próprios torcedores para a casa. Mas tenho certeza que não é o berço o culpado por tudo que o Palestra conquistou. É a causa.