DNA de arte. De amor. De Palmeiras

 A chuva de prata da Mancha Verde deixou traços e papéis picados até duas semanas depois, no gramado do Palestra. O espetáculo, inesquecível para olhos veteranos e virgens, como os do jovem Luca, 5, que debutava num estádio de futebol naquela noite de terça-feira, vai ficar para sempre.

Em campo, ao final do primeiro tempo, o Palmeiras foi aplaudido pela torcida como não acontecia desde..

.. desde…. quando?, num intervalo de jogo? A equipe mereceu. Apesar do sufoco do bom time de Brasília, o Palmeiras encaixou quatro contra-ataques e fez três gols. No segundo, o mais bonito, de Edmílson, os jovens palmeirenses de campo sa
caram dos calções uns focinhos de porco, enfiaram no rosto, e fizeram a imagem da semana, repetida à exaustão nas televisões e jornais.

Com o Corinthians em crise, São Paulo e Santos tentando desbancar o Cruzeiro da folgada liderança do BR-03, a mídia descobriu o palmeirense. E tome média! Era o time e a festa da torcida em todos os horários e canais. Hino para cima, focinho de porco no rosto, e muita paciência para os não-palmeirenses. De um jogo a outro, o que era descaso, escárnio, tornou-se um caso publicitário, uma pauta obrigatória: o Palmeiras dá Ibope, o Palmeiras vende jornal, o Palmeiras é o time da hora. E a toda hora tome Palmeiras.

No segu
e que o Palmeiras tomou o empate. Levou dois gols do Brasiliense em três minutos (o primeiro, num pênalti mandrake de Daniel; o segundo, num gol manjado de cabeça). E passou os últimos 20 minutos fazendo contas, figas e preces. O Brasiliense apertou, o palmeirense se apertou nas cadeiras do estádio, e só o pequeno Luca, 5, pareceu não sofrer. Quando o Brasiliense fez o segundo gol, ele, no colo do avô, jogava um game no celular. Como a torcida não se manifestou, para Luca, o placar estava 3 a 1. O pai dele chegou até a cogitar a hipótese de não contar o resultado final. Mas o garoto é esperto. Quando olhou para o placar eletrônico do estádio, e viu a realidade, perguntou, já respondendo: “Ué? Tá 3 a 2?”. A família não respondeu. E ele sacou que era melhor não cantar vitória e jogar o seu game. Até o final, o Luca ficou encolhido no colo ainda mais encolhido do avô. O Luca aprendeu que não tem game over no futebol.

Foto tirada por Luca Beting

Foi a primeira vez do Luca Beting em um estádio. 7 de outubro de 2003. Terça-feira. Jogo de segunda divisão. Time de primeira.

No domingo passado, contra o Capivariano, com o Sergio Ortiz, do Forza Palestrina, Luca tirou essa foto de um pai palmeirense com um filho palmeirense no cangote.

Como fiz a vida inteira com ele e com o Gabriel Beting.

O texto que abre é da edição especial da Placar da volta à primeira, em 2003, editada por Sérgio Xavier, Arnaldo Ribeiro e Mauricio Barros. Escrita por mim.

Com a emoção que tenho ao ver a foto linda feita por um menino de talento e coração grande.

Um moleque que em 2003 estava assim, feliz no cangote do menino mais velho da foto.

Só existe algo melhor que ser pai. É ser pai como esse da foto. E este do texto.